| Paul Tillich sempre dizia que, ao tentar compreender a Bíblia, o Criador, a cuja imagem diz-se que os humanos foram feitos, não deve ter nenhuma imagem, seja em termos humanos, seja em termos de qualquer outro aspecto da criação. Dessa forma, qualquer imagem que possamos ter de Deus nunca será verdadeiramente uma imagem bíblica. Às vezes ficamos fascinados pela beleza da criação, como o salmista: "Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste; Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites?" (Salmo 8:3-4). Outras vezes, nós nos dizemos: "Se ao menos eu tivesse sido consultado no início, eu teria várias sugestões ao Criador!" A criação é uma mistura de ordem e liberdade. Quanto mais complexo o organismo, maior a sua liberdade, maior a sua capacidade de prejudicar os outros e a ordem maior das coisas. Até mesmo as partículas subatômicas têm sua indeterminação. Os vírus podem causar mutações genéticas. As células, ao se reproduzirem, podem perder o controle. E os seres humanos... É só ler os jornais. Não é à toa que a Bíblia traz não uma, mas duas histórias da criação, uma sobre a criação do cosmos e outra sobre a criação dos humanos. Essas histórias vêm de tradições diferentes (P e J respectivamente), e não concordam inteiramente. Assim como nós. Alguns pensam que "o princípio", a criação, foi um evento no tempo. E querem fazer do primeiro capítulo do Gênesis uma descrição literal dos acontecimentos. Mas não é. Conta-se que certa vez um estudante perguntou a Santo Agostinho o que Deus estava fazendo ANTES de criar os céus e a terra. O teólogo parou um minuto para pensar e respondeu: "Estava criando o Inferno, para colocar lá os idiotas que fazem essas perguntas!" Ao ser lido com cuidado, o Gênesis começa com algo já existindo. "No princípio criou Deus os céus e a terra." Mas em seguida, conta-se: "E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas." Não liguem para essa inconsistência. O primeiro capítulo do Gênesis não é um tratado de história natural. É um prólogo poético a uma história sagrada, sob a forma de um hino. Aqui vai. Observem como cada estrofe começa com "E disse Deus" e termina com "E foi a tarde e a manhã, o dia X."
No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.
E disse Deus: Haja luz; e houve luz. E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas. E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.
E disse Deus: Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas. E fez Deus a expansão, e fez separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi. E chamou Deus à expansão Céus, e foi a tarde e a manhã, o dia segundo.
E disse Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça a porção seca; e assim foi. E chamou Deus à porção seca Terra; e ao ajuntamento das águas chamou Mares; e viu Deus que era bom. E disse Deus: Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra; e assim foi. E a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie, e a árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro.
E disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos. E sejam para luminares na expansão dos céus, para iluminar a terra; e assim foi. E fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas. E Deus os pós na expansão dos céus para iluminar a terra, E para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas; e viu Deus que era bom. E foi a tarde e a manhã, o dia quarto.
E disse Deus: Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus. E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. E Deus os abençoou, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas nos mares; e as aves se multipliquem na terra. E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.
E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie; gado, e répteis e feras da terra conforme a sua espécie; e assim foi. E fez Deus as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil da terra conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra. E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, servos-á para mantimento. E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi. E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.
Para a Bíblia, bem como para os outros antigos mitos do Oriente Médio, a criação era um eterno processo, uma "re-criação". Os mitos da criação não tinham o objetivo de responder à pergunta "de onde surgiram as coisas". Eles tinham uma função mais imediata e vital: celebrar o Divino, criando ordem a partir do caos, mas sem assumir que o Caos deixou de existir. Pelo contrário: o potencial para a desordem e o caos, tanto na natureza quanto na sociedade humana, permanece. Ao entoar os mitos da criação, as pessoas evocavam como a tênue ordem na qual os humanos vivem poderia ser sustentada e renovada. O Deus celebrado como o Criador é o que também "re-cria", reforçando os ritmos, estruturas e a criatividade que fizeram a vida possível em primeiro lugar. Isso explica por que a história da criação termina com o estabelecimento de um dia de adoração, o descanso do Shabbath. E aí entramos no segundo capítulo do Gênesis, o qual tratarei num próximo texto. |