| Todas as maneiras de se compreender a Bíblia são interpretações. Mas algumas são mais bem informadas do que outras. Algumas são mais úteis, edificantes, inspiradas. Outras são claramente opressivas. O mesmo pode ser dito das interpretações de Deus. É fácil ter más experiências com a Bíblia. É fácil dizer “isso não aconteceu!”. Ou, como a famosa (no Brasil, nem tão famosa) canção da ópera Porgy and Bess, “It ain’t necessarily so!” (não é necessariamente assim). Ninguém precisa entender literalmente quando se fala que Matusalém viveu novecentos anos. Isso é lenda, claramente. Também é fácil dizer “esse Deus é opressor!” De fato, todos sabem que algumas imagens de Deus foram usadas para justificar a violência e a injustiça. Mas não podemos nos esquecer de que as lendas tanto refletem quanto buscam transcender as realidades históricas. Para a Bíblia, Deus e a história estão intimamente relacionados. Ora, a história humana está cheia de opressão, violência e crueldade. Portanto, não é nada surpreendente que haja imagens contraditórias de Deus. Entretanto, uma coisa que merece ser destacada é que a Bíblia hebraica, ao invés de contar apenas o lado bom da história de Israel, busca um ponto-de-vista divino, ao contar também o lado ruim. Outro fato de destaque é que Deus parece sempre estar do lado dos pobres e oprimidos, buscando derrubar os opressores e dar força e poder aos que não possuem liberdade e dignidade humana. Certa vez, um rabino perguntou a um seu aluno: “Qual é o personagem mais trágico da Bíblia?” “Não é Jó”, arriscou o aluno. “Nem Jacó nem Saul... Hmm...” “Nada mal para um iniciante”, disse o rabino. “A figura mais trágica é Deus, que sofre com cada coisa ruim que acontece”. Nem tudo na Bíblia aconteceu de fato, evidentemente, ou aconteceu da maneira como está lá. Mas uma enorme quantidade de histórias encontra confirmação “extra-bíblica”. No início, há uma série de histórias lendárias que começam na pré-história, desde antes da memória humana até o início dos tempos; em seguida, há histórias dos antepassados lendários que ligam os israelitas a seus vizinhos. Mas o coração da história sagrada é a libertação de Israel da escravidão no Egito. Há aqui muita mistura de mitos e lendas, como em todo épico. Mas ao contrário da maioria dos épicos, essa história não acaba gloriosamente. A história continua para contar a ascensão e queda de Israel até o fim da dinastia de Davi, em 2 Reis 25. O livro seguinte (na ordenação cristã), Crônicas, começa repetindo toda a história de novo, de forma abreviada, começando com Adão, Sete, Enoque... Obviamente, quanto mais recuada é a história, mais os compiladores tiveram que confiar nas partes mais míticas e lendárias da tradição oral. Entretanto, para o material da época do rei Davi e de seu filho Salomão, há mais provas documentais. A história sagrada se torna mais histórica à medida que avança. O mesmo pode ser dito de Deus. A imagem mais comum de Deus (embora Deus deva estar além de qualquer imagem) é derivada do núcleo do épico nacional. É uma imagem de Deus como criador e libertador. Mas como há diferentes camadas de tradição, de diferentes eras de desenvolvimento religioso, não devemos nos surpreender se outras imagens de Deus não são assim tão exaltadas. Em realidade, algumas são de um Deus muito tribal, patriarcal e nacionalista. É tentador ler a Bíblia como se fosse um romance, perguntando-nos se gostamos ou não de seu protagonista (Deus). Provavelmente não, de acordo com nossos padrões contemporâneos. Mas não devemos nos esquecer de que é uma história de milhares de anos. Se Deus é apenas um personagem da história, então devemos notar pelo menos uma coisa: Deus melhora. Parecendo arbitrário, imperdoável, julgador e mesmo cruel no início, Deus cresce e amadurece. Talvez nós também, à medida que lemos. As experiências humanas na história exigem metáforas que transcendem essa história, para que interpretemos o que experimentamos. Na tradição bíblia, Deus é a metáfora máxima. Podemos ser completamente agnósticos em relação a Deus e céticos em relação à historicidade de eventos como o êxodo do Egito ou a ressurreição de Jesus. Mas compreender a Bíblia exige que tentemos compreender, pelo menos, o que há na experiência humana que originou tais metáforas transcendentes como criação, libertação e ressurreição. Em outras palavras, você não precisa acreditar no Deus da Bíblia para compreender suas histórias. Você não precisa sequer acreditar que a Bíblia seja consistente em sua imagem de Deus; ela não é. Tampouco são os seres humanos. Às vezes, as imagens bíblicas de Deus parecem trágicas, opressoras, punitivas, cruéis ou destrutivas. Bem como nós. Nós violamos nossos acordos uns com os outros e com Deus, que julga nossas falhas e oferece constantemente o que a Bíblia hebraica chama de hesed – amor imperturbável e permanente. É importante enfatizar, entretanto, que se o literalismo é um perigo, o extremo oposto, a tendência a tratar tudo como um símbolo de alguma verdade mais alta, também o é. Um bom exemplo disso é a história de Orígenes de Alexandria (182-251 d. C.). No início de sua carreira, Orígenes era um ferrenho literalista. Quando, como Jesus, ele permitiu que mulheres estudassem com ele, foi acusado de usá-las para relações sexuais. Ao ler Mateus 19:12 “há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus”, evidentemente, ele decidiu ler esse versículo literalmente! Posteriormente, ao ter se arrependido pela automutilação, não é surpresa que ele se tornou famoso por buscar as verdades espirituais mais profundas dentro dos textos, usando interpretações alegóricas. Isso também lhe trouxe problemas. Ele começou a pregar uma divisão entre a grande maioria dos cristãos que aceitavam os ensinamentos da igreja pela fé e motivados pelo medo, e a minoria de cristãos mais espirituais, que compreendiam sua fé racionalmente e eram motivados pelo amor. Orígenes foi, finalmente, condenado como herege. Há símbolos na Bíblia. Mas nem tudo é um mistério que exige uma análise literária. Como disse Freud, “às vezes um charuto é apenas um charuto!” Um grande desafio é interpretar as metáforas pelo que elas são e não ler as coisas nem como metáforas demais nem como literais demais. É interessante, na exegese bíblica, entender o conceito de midrash (midrashim, no plural). Um midrash é uma interpretação ou investigação de um texto bíblico em relação a outro texto ou história. Muitas vezes, histórias altamente imaginativas são criadas nos midrashim para reinterpretar ou dar sentido a uma tradição à luz de novas compreensões ou realidades. Depois da destruição do Templo de Jerusalém, em 70 d. C., por exemplo, os rabinos tiveram que reinterpretar o significado de uma série de histórias tradicionais. Esse conjunto de reinterpretações foi reunido de maneira coerente e ficou conhecido como o Talmude. Entretanto, pode-se ler as cartas de Paulo e os evangelhos dos primeiros cristãos como formas alternativas de midrashim, que reinterpretam os temas da Bíblia hebraica à luz da afirmação de que o esperado messias chegou, na figura de Jesus, e vai voltar para trazer a redenção. A partir desses pressupostos, faz-se necessário, agora, ir ao texto bíblico, que é o que pretendo fazer no próximo post. |