| Compreendendo a Bíblia (Adaptado de Understanding the Bible, de John Buehrens)
1. Por que se importar com a Bíblia?
“Uma compreensão inteligente da Bíblia é indispensável para qualquer um no mundo ocidental que deseje refletir seriamente sobre religião. É impossível para qualquer um de nós ser independente da influência da Bíblia. Nossa herança intelectual está repleta de suas palavras e frases, idéias e fórmulas. Ignorá-la constitui um grave obstáculo ao esforço para compreender qualquer grande literatura ocidental.” (Harry Emerson Fosdick, The modern use of the Bible, 1925)
É indiscutível que a influência da Bíblia na cultura ocidental é intensa e profunda. Entretanto, o que muitas vezes vemos são pessoas que usam a Bíblia para legitimar a exploração ambiental e econômica, o racismo, o sexismo, a homofobia e diversas outras formas de preconceito.
Todo mundo tem uma Bíblia em casa. Se não for comprada, é herdada dos pais ou avós. Mas o que é irônico é que só os fundamentalistas, em geral, é que a estudam. E muitas pessoas bem-informadas, até mesmo céticos, ao se referirem à Bíblia, acabam repetindo o discurso fundamentalista, dizendo que a Bíblia só significa o que os fundamentalistas dizem que ela significa.
Precisamos mudar isso. Precisamos mostrar que a Bíblia traz ensinamentos espirituais e éticos fascinantes, quando lida não-literalmente (e às vezes mesmo literalmente).
2. De onde vem a Bíblia? De onde surgem as tradições religiosas? Há duas respostas. A primeira: elas surgem de seres humanos. Nascem, desenvolvem-se e morrem. Elas são falhas. A segunda resposta: apesar de tudo isso, elas vêm de Deus. Elas tocam o Eterno e falam do Infinito. Transcendem gerações. Trazem-nos para o que é mais nobre, universal e generoso.
O problema é ver essas duas respostas como mutuamente exclusivas. Elas não são.
Dizem que Deus criou o mundo porque Ele adora histórias. Nós também. E dessa forma, percebemos que os autores das histórias da Bíblia já sabiam que a vida humana é uma grande história feita de episódios de criação, geração, libertação, exultação, frustração, redenção, expectativa, inspiração, proclamação, paixão, ressurreição, salvação e revelação, entre outras.
Ao olharmos para uma dada tradição, devemos nos fazer dois tipos de perguntas: 1. De onde essa história veio, e o que ela significou para aqueles que a contaram? 2. O que essa história significa atualmente, para nós, que vivemos hoje?
Quando nos perguntamos “quem escreveu a Bíblia?” logo vem à mente a famosa frase de que a Bíblia é a “Palavra de Deus”. Mas seus vários livros são atribuídos a seres humanos, e em nenhum momento há referência de que a Bíblia tenha de fato sido escrita por Deus.
Muitas vezes, a autoria é atribuída mais a tradições do que a indivíduos. Por exemplo: os cinco primeiros livros da Bíblia hebraica, conhecidos como Torá (ou Pentateuco, em grego), são os “cinco livros de Moisés”. Mas só os ultra-ortodoxos afirmam que esses livros foram de fato escritos por Moisés.
Já há muito tempo, os estudiosos têm percebido a existência de repetições. Notaram que um conjunto de histórias se refere a Deus com o nome sagrado hebraico YHVH (Javé ou Jeová). Outro conjunto usa a forma mais genérica Elohim, uma forma coletiva feminina plural, talvez melhor traduzida por “divindade”. Essas duas tradições foram chamadas de J e E, respectivamente.
Em seguida, notaram que alguns trechos da tradição E eram também repetições, e havia um conjunto distinto relacionado a problemas de veneração, pureza, ritual e lei. Essa ficou conhecida como tradição P. Por fim, o Deuteronômio e alguns livros que o seguem foram separados, por terem um estilo e uma teologia distintas, em que Deus age na história para recompensar os justos e destruir os infiéis. Essa é a tradição D.
Um pouco da cronologia da Bíblia hebraica: As histórias da Criação até Noé, embora introduzam o texto, não são as mais antigas. Em seguida, vem a migração de Abraão e Sara, saindo de Ur, passando pelo Crescente Fértil até o Jordão, depois descendo até o Egito e voltando à Palestina. Há vestígios arqueológicos de migrações como essas por volta de 1.900 a. C., na Idade do Bronze. Nos séculos que seguem a isso surgem as histórias de Abraão, Isaque e Jacó. Em seguida, a escravização dos hebreus no Egito teria ocorrido entre 1.800 e 1.200 a. C. O coração da epopéia hebraica é, de fato, a libertação dos hebreus da escravidão. Alguns estudiosos identificam os hebreus aos trabalhadores estrangeiros chamados de “hapiru” nas inscrições egípcias. A ida dos escravos do Egito até Canaã é consistente com as condições históricas de 1.200 a. C., embora ainda se debata qual teria sido o faraó envolvido. Os próximos dois séculos são descritos nos livros de Josué e Juízes. Samuel é o profeta que declara Saul rei de Israel, e depois Davi; em seguida, há toda a narração das histórias da corte de Davi. O reinado de Salomão, filho de Davi, após o ano 1.000 a. C., marca a Idade de Ouro de Israel. Com a morte de Salomão, aprox. 922 a. C., seu império foi dividido nos reinos de Judá, no sul (capital Jerusalém) e Israel, no norte (capital Sequém). Surgem profetas que advertem os judeus do não-cumprimento das ordens de Deus, mas isso é inútil. O reino de Israel é conquistado pelos assírios em 722 a. C. Judá cai sob o domínio babilônico em 587 a. C., e os reis vão para o exílio. Depois de quase 50 anos, Ciro da Pérsia vence os babilônios e, em 539 a. C., permite o retorno dos judeus. Neemias é autorizado a reconstruir as muralhas de Jerusalém, e o sacerdote Esdras conduz celebrações a Javé no templo reconstruído. As tradições J provavelmente foram coletadas e escritas em Judá, na era de Salomão, no século X a. C. As tradições E se desenvolveram no norte. Ambas as tradições contêm histórias de Moisés, do Êxodo, e dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó. Mas a tradição J enfatiza a aliança de Deus com Abraão, enquanto a tradição E destaca a importância do Êxodo e a aliança de Deus com Moisés no monte Sinai; Essas tradições foram reunidas provavelmente após 722 a. C. Durante o reinado de Josias de Judá, em 622 a. C., foi descoberto um “livro da lei” no Templo de Jerusalém (2 Reis 22). Esse livro teria sido o núcleo da tradição D, depois unido a outros textos. No entanto, o Pentateuco, como é conhecido atualmente, provavelmente não tomou forma antes da época de Neemias e Esdras, por volta de 450 a. C. As tradições P, com suas preocupações com lei, ritual e veneração, surgem com a crise a partir da destruição do Templo de Salomão e a necessidade de preservar a tradição. Provavelmente a Torá tenha servido como uma espécie de “constituição” para o novo Estado liderado por Esdras e Neemias. É por volta dessa época também, que a Bíblia hebraica adquire suas três divisões: Torá (o Pentateuco), Neviim (os Profetas) e Quetuvim (os Escritos). No Judaísmo, as Escrituras são conhecidas como Tanaque, a partir das primeiras letras de cada uma das três grandes partes.
A Torá consiste nos cinco livros de Moisés. Neviim, os Profetas, contém oito livros: os quatro livros dos chamados “Profetas Antigos”, que são os livros da história deuteronômica, de Josué e Juízes até Samuel e Reis. Em seguida, vêm os quatro livros dos “Profetas Posteriores”: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Os Doze (de Oséias a Malaquias). [Nota: nas Bíblias cristãs, Samuel e Reis são divididos em 1 Samuel e 2 Samuel, 1 Reis e 2 Reis; na Bíblia hebraica, cada um desses conta como um único livro. O mesmo ocorre com os doze profetas, que contam como doze livros separados para o Cristianismo, enquanto para o Judaísmo, são apenas um livro.] Há alguns problemas de atribuição de autoria com a inclusão de materiais em momentos diferentes. Materiais posteriores eram por vezes incluídos em trechos com que tinham maior afinidade. Por exemplo, há um primeiro Isaías, “no ano em que morreu o Rei Uzias” (Isaías 6:1), ou seja, 742 a. C.; em seguida, há um segundo Isaías, que fala claramente depois do fim do Exílio (539 a. C.), e talvez ainda um terceiro, em 530-510 a. C. A terceira grande divisão da Bíblia, o Quetuvim, ou Escritos, contém vários exemplos desse tipo de atribuição de autoria. O livro dos Salmos, por exemplo, embora atribuído a Davi, contém textos que datam claramente de cinco séculos após sua morte. O mesmo se pode dizer em relação aos Provérbios e a seu suposto autor, Salomão. Os Escritos ainda contêm a história de Jó, os cinco livros associados aos grandes feriados judaicos (Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester), o profeta tardio Daniel e as histórias de Esdras, Neemias e Crônicas. O cânone do Tanaque consiste, portanto, dos seguintes 24 livros: A. Torá 1. Gênesis 2. Êxodo 3. Números 4. Levítico 5. Deuteronômio B. Neviim 6. Josué 7. Juízes 8. Samuel 9. Reis 10. Isaías 11. Jeremias 12. Ezequiel 13. Os Doze C. Quetuvim 14. Salmos 15. Provérbios 16. Jó 17. Cântico dos Cânticos 18. Rute 19. Lamentações 20. Eclesiastes 21. Ester 22. Daniel 23. Esdras e Neemias 24. Crônicas
Voltando à nossa história: o período de domínio persa se encerra em 330 a. C. com as conquistas de Alexandre, o Grande. O grego começou a se tornar a língua internacional daquela região. Já na Revolta dos Macabeus, em 166-160 a. C., os judeus da Palestina já não falavam mais hebraico, mas aramaico. A maior comunidade judaica fora da Palestina, a de Alexandria, organizou uma tradução das Escrituras hebraicas para o grego. Essa tradução ficou conhecida como “Septuaginta”, (em latim, “setenta”), porque atribuiu-se a uma comissão de 70 sábios. Essa foi a versão que se difundiu entre os gentios (não-judeus), e ficou conhecida como “ta biblia” (“os livros”).
A partir daí, os escritos sagrados continuaram a aparecer, porém em grego. Começa a surgir o problema de quais escritos considerar inspirados. Os escritos originais em hebraico levavam vantagem, mas a Septuaginta era muito usada em sinagogas. Era essa a Bíblia usada pelos primeiros seguidores de Jesus. Porém, também havia outros textos que eram produzidos pelos cristãos e lidos em seus encontros.
Apenas em meados do século II, um cristão gentio chamado Marcião propôs que o Cristianismo negasse totalmente suas raízes judaicas. Os marcionitas não identificavam o Deus de Jesus com o Deus da Bíblia hebraica, não usavam as Escrituras hebraicas e consideravam como sagrados apenas as epístolas de Paulo e um evangelho escrito por um de seus seguidores gentios, Lucas. Entretanto, essa seita foi rejeitada pelos bispos cristãos, que viram a necessidade de estabelecer um cânone. Decidiram continuar a usar a Bíblia hebraica, na versão Septuaginta. Aceitaram também as epístolas de Paulo e outras atribuídas a ele ou aos apóstolos. Incluíram não só o evangelho de Lucas, mas outros três que eram atribuídos a pessoas que conheceram Jesus em vida. O primeiro ficou sendo o de Mateus, que retratava Jesus totalmente inserido na tradição hebraica, como a realização de todas as profecias.
Ao tentar incluir profecias cristãs, não houve tanto consenso. Da mesma forma como os rabinos relutaram em incluir as visões apocalípticas do profeta Daniel, havia muitos cristãos ainda no século IV que queriam deixar o livro das Revelações, atribuído ao apóstolo João, fora da Bíblia, alegando que era muito idiossincrático e facilmente mal-interpretado.
Em todo esse processo, muita coisa foi deixada de fora. O texto massorético (rabínico) da Bíblia hebraica, por exemplo, deixou de fora muitos textos incluídos na versão da Septuaginta. Porém, como o cristianismo optou por usar a Septuaginta, alguns desses textos foram aceitos. A tradução de Jerônimo da Bíblia para o latim (a “Vulgata”) deixou de fora os livros que não estavam no cânone hebraico.
Esses livros presentes na Septuaginta, porém não no texto massorético do Tanaque, são conhecidos como “apócrifos”. Incluem textos muito interessantes, como o Primeiro e Segundo livros de Macabeus, com a história do Hanuca; a chamada Sabedoria de Salomão; e o Eclesiástico, ou a Sabedoria de Jesus, filho de Siraque, entre vários outros. As Bíblias católicas e ortodoxas colocam esses livros em separado, chamando-os de deuterocanônicos; a maioria das Bíblias protestantes os ignora, com exceção das Bíblias anglicanas, que os colocam numa seção separada, entre o chamado Velho e o Novo Testamentos.
O Novo Testamento canônico também deixou de fora vários outros textos produzidos pelos primeiros cristãos. Muitos desses foram destruídos quando o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano. A maioria correspondia à chamada “heresia gnóstica”, ou “gnosticismo”. Em 1948, foi encontrada uma biblioteca gnóstica em Nag Hammadi, no Egito, e já foi inteiramente publicada, inclusive em língua portuguesa. Há textos interessantíssimos, como epístolas e evangelhos atribuídos a discípulos como Tomé e Filipe, e até mesmo a mulheres como Maria Madalena. |