Unitários e Universalistas Brasileiros

MessageFalecimento de Paulo ErenoJun 6, '05 5:50 PM
by Bruno for everyone
Faleceu, no último dia 31, Paulo Isaías Ereno, amigo e companheiro UUista. Ele foi o primeiro brasileiro a se interessar pelo UUismo, e contribuiu muito para a difusão da religião no Brasil e na América Latina. Era esperantista, e praticava também o budismo da linha theravada. No encontro de UUistas latino-americanos, em janeiro, na Argentina, celebramos juntos seu último aniversário.

MessageCompreendendo a Bíblia (3)Jun 3, '05 1:18 PM
by Bruno for everyone
Paul Tillich sempre dizia que, ao tentar compreender a Bíblia, o Criador, a cuja imagem diz-se que os humanos foram feitos, não deve ter nenhuma imagem, seja em termos humanos, seja em termos de qualquer outro aspecto da criação. Dessa forma, qualquer imagem que possamos ter de Deus nunca será verdadeiramente uma imagem bíblica.
Às vezes ficamos fascinados pela beleza da criação, como o salmista: "Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste; Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites?" (Salmo 8:3-4). Outras vezes, nós nos dizemos: "Se ao menos eu tivesse sido consultado no início, eu teria várias sugestões ao Criador!"
A criação é uma mistura de ordem e liberdade. Quanto mais complexo o organismo, maior a sua liberdade, maior a sua capacidade de prejudicar os outros e a ordem maior das coisas.
Até mesmo as partículas subatômicas têm sua indeterminação. Os vírus podem causar mutações genéticas. As células, ao se reproduzirem, podem perder o controle. E os seres humanos... É só ler os jornais. Não é à toa que a Bíblia traz não uma, mas duas histórias da criação, uma sobre a criação do cosmos e outra sobre a criação dos humanos. Essas histórias vêm de tradições diferentes (P e J respectivamente), e não concordam inteiramente. Assim como nós.
Alguns pensam que "o princípio", a criação, foi um evento no tempo. E querem fazer do primeiro capítulo do Gênesis uma descrição literal dos acontecimentos. Mas não é. Conta-se que certa vez um estudante perguntou a Santo Agostinho o que Deus estava fazendo ANTES de criar os céus e a terra. O teólogo parou um minuto para pensar e respondeu: "Estava criando o Inferno, para colocar lá os idiotas que fazem essas perguntas!"
Ao ser lido com cuidado, o Gênesis começa com algo já existindo. "No princípio criou Deus os céus e a terra." Mas em seguida, conta-se: "E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas."
Não liguem para essa inconsistência. O primeiro capítulo do Gênesis não é um tratado de história natural. É um prólogo poético a uma história sagrada, sob a forma de um hino. Aqui vai. Observem como cada estrofe começa com "E disse Deus" e termina com "E foi a tarde e a manhã, o dia X."

No princípio criou Deus os céus e a terra.
E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

E disse Deus: Haja luz; e houve luz.
E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas.
E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.

E disse Deus: Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas.
E fez Deus a expansão, e fez separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi.
E chamou Deus à expansão Céus, e foi a tarde e a manhã, o dia segundo.

E disse Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça a porção seca; e assim foi.
E chamou Deus à porção seca Terra; e ao ajuntamento das águas chamou Mares; e viu Deus que era bom.
E disse Deus: Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra; e assim foi.
E a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie, e a árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.
E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro.

E disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos.
E sejam para luminares na expansão dos céus, para iluminar a terra; e assim foi.
E fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas.
E Deus os pós na expansão dos céus para iluminar a terra,
E para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas; e viu Deus que era bom.
E foi a tarde e a manhã, o dia quarto.

E disse Deus: Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus.
E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.
E Deus os abençoou, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas nos mares; e as aves se multipliquem na terra.
E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.

E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie; gado, e répteis e feras da terra conforme a sua espécie; e assim foi.
E fez Deus as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil da terra conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.
E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.
E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.
E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, servos-á para mantimento.
E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi.
E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.

Para a Bíblia, bem como para os outros antigos mitos do Oriente Médio, a criação era um eterno processo, uma "re-criação". Os mitos da criação não tinham o objetivo de responder à pergunta "de onde surgiram as coisas". Eles tinham uma função mais imediata e vital: celebrar o Divino, criando ordem a partir do caos, mas sem assumir que o Caos deixou de existir. Pelo contrário: o potencial para a desordem e o caos, tanto na natureza quanto na sociedade humana, permanece. Ao entoar os mitos da criação, as pessoas evocavam como a tênue ordem na qual os humanos vivem poderia ser sustentada e renovada. O Deus celebrado como o Criador é o que também "re-cria", reforçando os ritmos, estruturas e a criatividade que fizeram a vida possível em primeiro lugar. Isso explica por que a história da criação termina com o estabelecimento de um dia de adoração, o descanso do Shabbath. E aí entramos no segundo capítulo do Gênesis, o qual tratarei num próximo texto.

MessageCompreendendo a Bíblia (2)May 28, '05 9:35 AM
by Bruno for everyone
Todas as maneiras de se compreender a Bíblia são interpretações. Mas algumas são mais bem informadas do que outras. Algumas são mais úteis, edificantes, inspiradas. Outras são claramente opressivas. O mesmo pode ser dito das interpretações de Deus.
É fácil ter más experiências com a Bíblia. É fácil dizer “isso não aconteceu!”. Ou, como a famosa (no Brasil, nem tão famosa) canção da ópera Porgy and Bess, “It ain’t necessarily so!” (não é necessariamente assim). Ninguém precisa entender literalmente quando se fala que Matusalém viveu novecentos anos. Isso é lenda, claramente. Também é fácil dizer “esse Deus é opressor!” De fato, todos sabem que algumas imagens de Deus foram usadas para justificar a violência e a injustiça. Mas não podemos nos esquecer de que as lendas tanto refletem quanto buscam transcender as realidades históricas.
Para a Bíblia, Deus e a história estão intimamente relacionados. Ora, a história humana está cheia de opressão, violência e crueldade. Portanto, não é nada surpreendente que haja imagens contraditórias de Deus. Entretanto, uma coisa que merece ser destacada é que a Bíblia hebraica, ao invés de contar apenas o lado bom da história de Israel, busca um ponto-de-vista divino, ao contar também o lado ruim. Outro fato de destaque é que Deus parece sempre estar do lado dos pobres e oprimidos, buscando derrubar os opressores e dar força e poder aos que não possuem liberdade e dignidade humana.
Certa vez, um rabino perguntou a um seu aluno: “Qual é o personagem mais trágico da Bíblia?” “Não é Jó”, arriscou o aluno. “Nem Jacó nem Saul... Hmm...” “Nada mal para um iniciante”, disse o rabino. “A figura mais trágica é Deus, que sofre com cada coisa ruim que acontece”.
Nem tudo na Bíblia aconteceu de fato, evidentemente, ou aconteceu da maneira como está lá. Mas uma enorme quantidade de histórias encontra confirmação “extra-bíblica”.
No início, há uma série de histórias lendárias que começam na pré-história, desde antes da memória humana até o início dos tempos; em seguida, há histórias dos antepassados lendários que ligam os israelitas a seus vizinhos. Mas o coração da história sagrada é a libertação de Israel da escravidão no Egito. Há aqui muita mistura de mitos e lendas, como em todo épico. Mas ao contrário da maioria dos épicos, essa história não acaba gloriosamente. A história continua para contar a ascensão e queda de Israel até o fim da dinastia de Davi, em 2 Reis 25.
O livro seguinte (na ordenação cristã), Crônicas, começa repetindo toda a história de novo, de forma abreviada, começando com Adão, Sete, Enoque... Obviamente, quanto mais recuada é a história, mais os compiladores tiveram que confiar nas partes mais míticas e lendárias da tradição oral. Entretanto, para o material da época do rei Davi e de seu filho Salomão, há mais provas documentais. A história sagrada se torna mais histórica à medida que avança.
O mesmo pode ser dito de Deus. A imagem mais comum de Deus (embora Deus deva estar além de qualquer imagem) é derivada do núcleo do épico nacional. É uma imagem de Deus como criador e libertador. Mas como há diferentes camadas de tradição, de diferentes eras de desenvolvimento religioso, não devemos nos surpreender se outras imagens de Deus não são assim tão exaltadas. Em realidade, algumas são de um Deus muito tribal, patriarcal e nacionalista.
É tentador ler a Bíblia como se fosse um romance, perguntando-nos se gostamos ou não de seu protagonista (Deus). Provavelmente não, de acordo com nossos padrões contemporâneos. Mas não devemos nos esquecer de que é uma história de milhares de anos. Se Deus é apenas um personagem da história, então devemos notar pelo menos uma coisa: Deus melhora. Parecendo arbitrário, imperdoável, julgador e mesmo cruel no início, Deus cresce e amadurece. Talvez nós também, à medida que lemos.
As experiências humanas na história exigem metáforas que transcendem essa história, para que interpretemos o que experimentamos. Na tradição bíblia, Deus é a metáfora máxima. Podemos ser completamente agnósticos em relação a Deus e céticos em relação à historicidade de eventos como o êxodo do Egito ou a ressurreição de Jesus. Mas compreender a Bíblia exige que tentemos compreender, pelo menos, o que há na experiência humana que originou tais metáforas transcendentes como criação, libertação e ressurreição.
Em outras palavras, você não precisa acreditar no Deus da Bíblia para compreender suas histórias. Você não precisa sequer acreditar que a Bíblia seja consistente em sua imagem de Deus; ela não é. Tampouco são os seres humanos. Às vezes, as imagens bíblicas de Deus parecem trágicas, opressoras, punitivas, cruéis ou destrutivas. Bem como nós. Nós violamos nossos acordos uns com os outros e com Deus, que julga nossas falhas e oferece constantemente o que a Bíblia hebraica chama de hesed – amor imperturbável e permanente.
É importante enfatizar, entretanto, que se o literalismo é um perigo, o extremo oposto, a tendência a tratar tudo como um símbolo de alguma verdade mais alta, também o é. Um bom exemplo disso é a história de Orígenes de Alexandria (182-251 d. C.). No início de sua carreira, Orígenes era um ferrenho literalista. Quando, como Jesus, ele permitiu que mulheres estudassem com ele, foi acusado de usá-las para relações sexuais. Ao ler Mateus 19:12 “há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus”, evidentemente, ele decidiu ler esse versículo literalmente! Posteriormente, ao ter se arrependido pela automutilação, não é surpresa que ele se tornou famoso por buscar as verdades espirituais mais profundas dentro dos textos, usando interpretações alegóricas. Isso também lhe trouxe problemas. Ele começou a pregar uma divisão entre a grande maioria dos cristãos que aceitavam os ensinamentos da igreja pela fé e motivados pelo medo, e a minoria de cristãos mais espirituais, que compreendiam sua fé racionalmente e eram motivados pelo amor. Orígenes foi, finalmente, condenado como herege.
Há símbolos na Bíblia. Mas nem tudo é um mistério que exige uma análise literária. Como disse Freud, “às vezes um charuto é apenas um charuto!” Um grande desafio é interpretar as metáforas pelo que elas são e não ler as coisas nem como metáforas demais nem como literais demais.
É interessante, na exegese bíblica, entender o conceito de midrash (midrashim, no plural). Um midrash é uma interpretação ou investigação de um texto bíblico em relação a outro texto ou história. Muitas vezes, histórias altamente imaginativas são criadas nos midrashim para reinterpretar ou dar sentido a uma tradição à luz de novas compreensões ou realidades.
Depois da destruição do Templo de Jerusalém, em 70 d. C., por exemplo, os rabinos tiveram que reinterpretar o significado de uma série de histórias tradicionais. Esse conjunto de reinterpretações foi reunido de maneira coerente e ficou conhecido como o Talmude. Entretanto, pode-se ler as cartas de Paulo e os evangelhos dos primeiros cristãos como formas alternativas de midrashim, que reinterpretam os temas da Bíblia hebraica à luz da afirmação de que o esperado messias chegou, na figura de Jesus, e vai voltar para trazer a redenção.
A partir desses pressupostos, faz-se necessário, agora, ir ao texto bíblico, que é o que pretendo fazer no próximo post.

MessageCompreendendo a Bíblia (1)May 17, '05 2:31 PM
by Bruno for everyone
Compreendendo a Bíblia
(Adaptado de Understanding the Bible, de John Buehrens)

1. Por que se importar com a Bíblia?

“Uma compreensão inteligente da Bíblia é indispensável para qualquer um no mundo ocidental que deseje refletir seriamente sobre religião. É impossível para qualquer um de nós ser independente da influência da Bíblia. Nossa herança intelectual está repleta de suas palavras e frases, idéias e fórmulas. Ignorá-la constitui um grave obstáculo ao esforço para compreender qualquer grande literatura ocidental.” (Harry Emerson Fosdick, The modern use of the Bible, 1925)

É indiscutível que a influência da Bíblia na cultura ocidental é intensa e profunda. Entretanto, o que muitas vezes vemos são pessoas que usam a Bíblia para legitimar a exploração ambiental e econômica, o racismo, o sexismo, a homofobia e diversas outras formas de preconceito.

Todo mundo tem uma Bíblia em casa. Se não for comprada, é herdada dos pais ou avós. Mas o que é irônico é que só os fundamentalistas, em geral, é que a estudam. E muitas pessoas bem-informadas, até mesmo céticos, ao se referirem à Bíblia, acabam repetindo o discurso fundamentalista, dizendo que a Bíblia só significa o que os fundamentalistas dizem que ela significa.

Precisamos mudar isso. Precisamos mostrar que a Bíblia traz ensinamentos espirituais e éticos fascinantes, quando lida não-literalmente (e às vezes mesmo literalmente).

2. De onde vem a Bíblia?
De onde surgem as tradições religiosas? Há duas respostas. A primeira: elas surgem de seres humanos. Nascem, desenvolvem-se e morrem. Elas são falhas.
A segunda resposta: apesar de tudo isso, elas vêm de Deus. Elas tocam o Eterno e falam do Infinito. Transcendem gerações. Trazem-nos para o que é mais nobre, universal e generoso.

O problema é ver essas duas respostas como mutuamente exclusivas. Elas não são.

Dizem que Deus criou o mundo porque Ele adora histórias. Nós também. E dessa forma, percebemos que os autores das histórias da Bíblia já sabiam que a vida humana é uma grande história feita de episódios de criação, geração, libertação, exultação, frustração, redenção, expectativa, inspiração, proclamação, paixão, ressurreição, salvação e revelação, entre outras.

Ao olharmos para uma dada tradição, devemos nos fazer dois tipos de perguntas: 1. De onde essa história veio, e o que ela significou para aqueles que a contaram? 2. O que essa história significa atualmente, para nós, que vivemos hoje?

Quando nos perguntamos “quem escreveu a Bíblia?” logo vem à mente a famosa frase de que a Bíblia é a “Palavra de Deus”. Mas seus vários livros são atribuídos a seres humanos, e em nenhum momento há referência de que a Bíblia tenha de fato sido escrita por Deus.

Muitas vezes, a autoria é atribuída mais a tradições do que a indivíduos. Por exemplo: os cinco primeiros livros da Bíblia hebraica, conhecidos como Torá (ou Pentateuco, em grego), são os “cinco livros de Moisés”. Mas só os ultra-ortodoxos afirmam que esses livros foram de fato escritos por Moisés.

Já há muito tempo, os estudiosos têm percebido a existência de repetições. Notaram que um conjunto de histórias se refere a Deus com o nome sagrado hebraico YHVH (Javé ou Jeová). Outro conjunto usa a forma mais genérica Elohim, uma forma coletiva feminina plural, talvez melhor traduzida por “divindade”. Essas duas tradições foram chamadas de J e E, respectivamente.

Em seguida, notaram que alguns trechos da tradição E eram também repetições, e havia um conjunto distinto relacionado a problemas de veneração, pureza, ritual e lei. Essa ficou conhecida como tradição P. Por fim, o Deuteronômio e alguns livros que o seguem foram separados, por terem um estilo e uma teologia distintas, em que Deus age na história para recompensar os justos e destruir os infiéis. Essa é a tradição D.

Um pouco da cronologia da Bíblia hebraica:
As histórias da Criação até Noé, embora introduzam o texto, não são as mais antigas.
Em seguida, vem a migração de Abraão e Sara, saindo de Ur, passando pelo Crescente Fértil até o Jordão, depois descendo até o Egito e voltando à Palestina. Há vestígios arqueológicos de migrações como essas por volta de 1.900 a. C., na Idade do Bronze. Nos séculos que seguem a isso surgem as histórias de Abraão, Isaque e Jacó. Em seguida, a escravização dos hebreus no Egito teria ocorrido entre 1.800 e 1.200 a. C.
O coração da epopéia hebraica é, de fato, a libertação dos hebreus da escravidão. Alguns estudiosos identificam os hebreus aos trabalhadores estrangeiros chamados de “hapiru” nas inscrições egípcias. A ida dos escravos do Egito até Canaã é consistente com as condições históricas de 1.200 a. C., embora ainda se debata qual teria sido o faraó envolvido.
Os próximos dois séculos são descritos nos livros de Josué e Juízes. Samuel é o profeta que declara Saul rei de Israel, e depois Davi; em seguida, há toda a narração das histórias da corte de Davi. O reinado de Salomão, filho de Davi, após o ano 1.000 a. C., marca a Idade de Ouro de Israel.
Com a morte de Salomão, aprox. 922 a. C., seu império foi dividido nos reinos de Judá, no sul (capital Jerusalém) e Israel, no norte (capital Sequém). Surgem profetas que advertem os judeus do não-cumprimento das ordens de Deus, mas isso é inútil. O reino de Israel é conquistado pelos assírios em 722 a. C. Judá cai sob o domínio babilônico em 587 a. C., e os reis vão para o exílio. Depois de quase 50 anos, Ciro da Pérsia vence os babilônios e, em 539 a. C., permite o retorno dos judeus. Neemias é autorizado a reconstruir as muralhas de Jerusalém, e o sacerdote Esdras conduz celebrações a Javé no templo reconstruído.
As tradições J provavelmente foram coletadas e escritas em Judá, na era de Salomão, no século X a. C. As tradições E se desenvolveram no norte. Ambas as tradições contêm histórias de Moisés, do Êxodo, e dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó. Mas a tradição J enfatiza a aliança de Deus com Abraão, enquanto a tradição E destaca a importância do Êxodo e a aliança de Deus com Moisés no monte Sinai; Essas tradições foram reunidas provavelmente após 722 a. C.
Durante o reinado de Josias de Judá, em 622 a. C., foi descoberto um “livro da lei” no Templo de Jerusalém (2 Reis 22). Esse livro teria sido o núcleo da tradição D, depois unido a outros textos.
No entanto, o Pentateuco, como é conhecido atualmente, provavelmente não tomou forma antes da época de Neemias e Esdras, por volta de 450 a. C. As tradições P, com suas preocupações com lei, ritual e veneração, surgem com a crise a partir da destruição do Templo de Salomão e a necessidade de preservar a tradição. Provavelmente a Torá tenha servido como uma espécie de “constituição” para o novo Estado liderado por Esdras e Neemias.
É por volta dessa época também, que a Bíblia hebraica adquire suas três divisões: Torá (o Pentateuco), Neviim (os Profetas) e Quetuvim (os Escritos). No Judaísmo, as Escrituras são conhecidas como Tanaque, a partir das primeiras letras de cada uma das três grandes partes.

A Torá consiste nos cinco livros de Moisés.
Neviim, os Profetas, contém oito livros: os quatro livros dos chamados “Profetas Antigos”, que são os livros da história deuteronômica, de Josué e Juízes até Samuel e Reis. Em seguida, vêm os quatro livros dos “Profetas Posteriores”: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Os Doze (de Oséias a Malaquias). [Nota: nas Bíblias cristãs, Samuel e Reis são divididos em 1 Samuel e 2 Samuel, 1 Reis e 2 Reis; na Bíblia hebraica, cada um desses conta como um único livro. O mesmo ocorre com os doze profetas, que contam como doze livros separados para o Cristianismo, enquanto para o Judaísmo, são apenas um livro.]
Há alguns problemas de atribuição de autoria com a inclusão de materiais em momentos diferentes. Materiais posteriores eram por vezes incluídos em trechos com que tinham maior afinidade. Por exemplo, há um primeiro Isaías, “no ano em que morreu o Rei Uzias” (Isaías 6:1), ou seja, 742 a. C.; em seguida, há um segundo Isaías, que fala claramente depois do fim do Exílio (539 a. C.), e talvez ainda um terceiro, em 530-510 a. C.
A terceira grande divisão da Bíblia, o Quetuvim, ou Escritos, contém vários exemplos desse tipo de atribuição de autoria. O livro dos Salmos, por exemplo, embora atribuído a Davi, contém textos que datam claramente de cinco séculos após sua morte. O mesmo se pode dizer em relação aos Provérbios e a seu suposto autor, Salomão. Os Escritos ainda contêm a história de Jó, os cinco livros associados aos grandes feriados judaicos (Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester), o profeta tardio Daniel e as histórias de Esdras, Neemias e Crônicas. O cânone do Tanaque consiste, portanto, dos seguintes 24 livros:

A. Torá
1. Gênesis
2. Êxodo
3. Números
4. Levítico
5. Deuteronômio
B. Neviim
6. Josué
7. Juízes
8. Samuel
9. Reis
10. Isaías
11. Jeremias
12. Ezequiel
13. Os Doze
C. Quetuvim
14. Salmos
15. Provérbios
16. Jó
17. Cântico dos Cânticos
18. Rute
19. Lamentações
20. Eclesiastes
21. Ester
22. Daniel
23. Esdras e Neemias
24. Crônicas


Voltando à nossa história: o período de domínio persa se encerra em 330 a. C. com as conquistas de Alexandre, o Grande. O grego começou a se tornar a língua internacional daquela região. Já na Revolta dos Macabeus, em 166-160 a. C., os judeus da Palestina já não falavam mais hebraico, mas aramaico. A maior comunidade judaica fora da Palestina, a de Alexandria, organizou uma tradução das Escrituras hebraicas para o grego. Essa tradução ficou conhecida como “Septuaginta”, (em latim, “setenta”), porque atribuiu-se a uma comissão de 70 sábios. Essa foi a versão que se difundiu entre os gentios (não-judeus), e ficou conhecida como “ta biblia” (“os livros”).

A partir daí, os escritos sagrados continuaram a aparecer, porém em grego. Começa a surgir o problema de quais escritos considerar inspirados. Os escritos originais em hebraico levavam vantagem, mas a Septuaginta era muito usada em sinagogas. Era essa a Bíblia usada pelos primeiros seguidores de Jesus. Porém, também havia outros textos que eram produzidos pelos cristãos e lidos em seus encontros.

Apenas em meados do século II, um cristão gentio chamado Marcião propôs que o Cristianismo negasse totalmente suas raízes judaicas. Os marcionitas não identificavam o Deus de Jesus com o Deus da Bíblia hebraica, não usavam as Escrituras hebraicas e consideravam como sagrados apenas as epístolas de Paulo e um evangelho escrito por um de seus seguidores gentios, Lucas. Entretanto, essa seita foi rejeitada pelos bispos cristãos, que viram a necessidade de estabelecer um cânone. Decidiram continuar a usar a Bíblia hebraica, na versão Septuaginta. Aceitaram também as epístolas de Paulo e outras atribuídas a ele ou aos apóstolos. Incluíram não só o evangelho de Lucas, mas outros três que eram atribuídos a pessoas que conheceram Jesus em vida. O primeiro ficou sendo o de Mateus, que retratava Jesus totalmente inserido na tradição hebraica, como a realização de todas as profecias.

Ao tentar incluir profecias cristãs, não houve tanto consenso. Da mesma forma como os rabinos relutaram em incluir as visões apocalípticas do profeta Daniel, havia muitos cristãos ainda no século IV que queriam deixar o livro das Revelações, atribuído ao apóstolo João, fora da Bíblia, alegando que era muito idiossincrático e facilmente mal-interpretado.

Em todo esse processo, muita coisa foi deixada de fora. O texto massorético (rabínico) da Bíblia hebraica, por exemplo, deixou de fora muitos textos incluídos na versão da Septuaginta. Porém, como o cristianismo optou por usar a Septuaginta, alguns desses textos foram aceitos. A tradução de Jerônimo da Bíblia para o latim (a “Vulgata”) deixou de fora os livros que não estavam no cânone hebraico.

Esses livros presentes na Septuaginta, porém não no texto massorético do Tanaque, são conhecidos como “apócrifos”. Incluem textos muito interessantes, como o Primeiro e Segundo livros de Macabeus, com a história do Hanuca; a chamada Sabedoria de Salomão; e o Eclesiástico, ou a Sabedoria de Jesus, filho de Siraque, entre vários outros. As Bíblias católicas e ortodoxas colocam esses livros em separado, chamando-os de deuterocanônicos; a maioria das Bíblias protestantes os ignora, com exceção das Bíblias anglicanas, que os colocam numa seção separada, entre o chamado Velho e o Novo Testamentos.

O Novo Testamento canônico também deixou de fora vários outros textos produzidos pelos primeiros cristãos. Muitos desses foram destruídos quando o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano. A maioria correspondia à chamada “heresia gnóstica”, ou “gnosticismo”. Em 1948, foi encontrada uma biblioteca gnóstica em Nag Hammadi, no Egito, e já foi inteiramente publicada, inclusive em língua portuguesa. Há textos interessantíssimos, como epístolas e evangelhos atribuídos a discípulos como Tomé e Filipe, e até mesmo a mulheres como Maria Madalena.

Messagepiadas UUistas (ou hUUmor)Mar 12, '05 7:30 PM
by Bruno for everyone
Algumas piadas UUistas. Se alguém souber mais alguma, poste ou me avise que eu posto!

Um UUista morreu; ao chegar no além, viu-se diante de uma encruzilhada. Para uma direção, uma placa apontava: "Para o Paraíso". Para a outra direção, a placa dizia: "Para um discussão sobre o Paraíso". Adivinhe qual dos caminhos o UUista escolheu!

Os UUistas não têm "Dez Mandamentos"; têm "Dez Sugestões".

Perguntaram a um visitante o que ele tinha achado da igreja UUista. "A igreja mais doida que eu já vi", disse ele. "A única vez que eu ouvi o nome de Jesus Cristo foi quando o zelador tropeçou na escada".

Um UUista rezando: "Oh Deus, se existe Deus, por favor, salve minha alma, se existe alma".

Atribui-se a Thomas Starr King a explicitação da diferença entre os unitaristas e os universalistas: os universalistas acreditam que Deus é muito bom para condenar os homens; os unitaristas acreditam que o homem é muito bom para ser condenado por Deus.

As crianças UUistas na escola dominical estavam desenhando. O professor perguntou a uma delas: "O que você está desenhando?" "Estou fazendo um desenho de Deus", respondeu a criança. "Mas ninguém sabe como é Deus!" "Eles vão saber", respondeu a criança, "assim que eu terminar meu desenho!"

Dizem que, quando três UUistas estão juntos, há, para qualquer assunto, no mínimo quatro opiniões!

O que resulta do cruzamento entre um UUista e um Testemunha de Jeová? Alguém que bate à sua porta e em seguida pergunta "quem sou eu".

Qual é a diferença entre os católicos rezando e os UUistas rezando?
Os católicos fazem a cruz na parte superior do corpo; os UUistas fazem a cruz cruzando os dedos.

Um slogan: "Unitário-Universalismo: onde todas as suas respostas serão questionadas."

O que resulta do cruzamento entre um UUista e um membro da KKK?
Alguém que queima pontos-de-interrogação em frente das casas.

Dois garotos UUistas estavam discutindo para ver quem sabia mais sobre a Bíblia.
- Eu aposto cinco reais que você nem sabe o Pai-Nosso!
- Sei, sim, quer ver? "O Senhor é meu pastor..." - e começa a recitar o Salmo 23.
- Eh, bom, acho que te devo cinco reais...

O que os UUistas pensam a respeito do sexo antes do casamento?
Pode atrasar a cerimônia!

Quais são as semelhanças entre os UUistas e os vampiros?
Ambos vêm da Transilvânia, e ambos fogem das cruzes.

Unitários e Universalistas Brasileiros
Join this Group!RSS FeedHelp on RSS FeedsAdd to My Yahoo
Report Abuse
© 2008 Multiply, Inc.    About · Blog · Terms · Privacy · Corp Info · Contact Us · Help